Conheça os vencedores do concurso literário do evento Os Subversos – (Ins)pirações LGBT

O Concurso Literário foi uma forma que Os Subversos encontraram de estimular a criação do público que prestigiou o evento do dia 16/06/12, no Centro Cultural Justiça Federal.
Os interessados em participar do concurso enviaram seus textos junto com o e-mail de pré-inscrição. Podiam concorrer contos, crônicas ou poesias de no máximo uma lauda com o tema “Eu me inspiro em… (Cinema, Teatro, Moda ou Literatura)”.
O autor do texto vencedor “Ausência”  inspirou-se na Literatura do escritor Caio Fernando Abreu. Os Subversos também premiaram o texto “A Nova Terra” com menção honrosa.
Leia os textos e inspire-se! 😉
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Ausência

De Almer Junior

Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite

que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará

quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada

qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um

movimento te surpreenderás pensando algo como

“estou contente outra vez”.

Caio F. Abreu

Será que existe a tal felicidade? Ele perguntou-se outro dia de manhã. A cama amanhecia mais uma vez vazia. Fazia uma semana que ele se fora e a ausência era algo que agora se lhe colava os ossos, as carnes doíam, os nervos não respondiam ao comando do cérebro – ainda tinha um??!! – na boca ainda o gosto amargo do café frio de ontem misturado a algum vinho vagabundo e alguma coisa que comera não sabia quando. Na cama ainda a marca do corpo dele. Não tinha coragem de esticá-la, de desfazer as marcas de seu corpo, que estavam ainda entranhadas no seu próprio corpo – o cheiro e a maciez da pele, o volume dos braços, o calor do peito, a rigidez do sexo, o modo como gemia quando se amavam, o sorriso estampado no rosto satisfeito, a forma como o olhava depois de tudo – ai, meu Deus! Os olhos! Que olhos! Nunca mais ter aqueles olhos sobre si era o que mais doía! No pouco que dormia, acordava assustado. Na cabeceira, livros de Caio Fernando Abreu e um de seus textos na cabeça “Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe?” e o choro incontido, ou às vezes velado, toda vez que ouvia “Depois de varar madrugada/Esperando por nada/De arrastar-me no chão/Em vão/Tu viraste-me as costas/Não me deu as respostas/Que eu preciso escutar” na voz de Marisa Monte. Descendo até o mais baixo que se pode descer, galgava desenfreado na busca alucinada por alguma coisa que suprisse aquele vazio: a fé, os amigos, a bebida, o cigarro, o sexo com desconhecidos, as compras compulsivas, as inúmeras baladas, os beijos molhados e cavernosos, e, de repente, não mais que de repente, a percepção de que se sentia cada vez mais só, cada vez mais triste, a presença dele ainda muito presente, e , por mais que buscasse, eram outras sensações, outros cheiros, outros gostos, outros orgasmos, e enfim a percepção de que nada é muito igual ao que já foi , ou “nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia” e em algum lugar de seu ser a ideia de que é preciso fazer algo, é preciso se mover, viver, amar, navegar, partir, sonhar, e de que a vida é isso aí, é pra ser vivida com suas idas e vindas, e que embora a cicatriz esteja lá para ser contemplada, como uma marca irrefutável da passado, ela vai doer cada vez menos, e que “não há mal que cem anos dure”, e que é preciso esticar a cama, trocar os lençóis, abrir as janelas do quarto, afastar as cortinas e, enfim, deixar a luz do sol entrar e tomar consciência de que, bem, acabou!

Almer Jr., autor do texto campeão, recebendo presente da produção pelas mãos de Kiko Riaze. O texto ainda ganhou uma leitura dramatizada do “dzi croquette” Bayard Tonelli.

A Nova Terra

De Flavio Sanctum

Ano de 3012. O termo “o mundo é gay” tornou-se realidade e o planeta Terra é habitado por criaturas denominadas ÊLAS. Não há mais variedades de sexo, pois ÊLAS podem procriar livremente, já que não possuem gêneros ou predeterminações sexuais como ativos e passivos. Tais conceitos, na Nova Terra, foram extintos.

Há séculos cientistas, físicos quânticos, biólogos, filósofos metafísicos e astrônomos reúnem-se no Laboratório Universal para tentarem descobrir a origem desses seres, ambíguos, amantes, sedutores e sexualmente livres. E no encontro mundial desse ano uma descoberta foi feita: encontraram um fóssil, de mil anos atrás, que poderia ser considerado o ancestral primeiro da civilização ÊLA.

A investigação começou. Um corre-corre de jornalistas e imprensa sensacionalista queria ter acesso à ossada, com maquiagem exagerada, feições grotescas e uma peruca arrepiada. E entre análises profundas das células mumificadas, a cortina do mundo antigo era aberta lentamente.

Descobriu-se que, por conta de um cataclismo em nossa atmosfera, em diversas partes do planeta houve tempestades torrenciais ao mesmo tempo em que os raios solares assumiam temperaturas antes nunca imaginadas. Da mistura química dos raios ultravioletas do sol com a poluição da chuva nas grandes metrópoles, diversos Arco-Íris radioativos foram formados. Todos que entravam em contato com a luz radiada pelo Arco-Íris sofriam mutação genética e tornavam-se Zumbis A-Gênero. Com o passar dos anos, o número de Zumbis A-Gêneros foram aumentando até formar a civilização ÊLA, que tomou conta dos poderes legislativos, executivos e judiciários. ÊLAS tornaram-se grande liderança mundial.

E o mais impactante estava por vir! O local onde o fóssil fora encontrado era antes chamado de bairro da Lapa e possuía grande concentração de radioatividade. Muitos Zumbis A-Gêneros percorreram os arredores desse antigo bairro e multiplicaram sua biologia sem gênero. E, através da peruca esfarrapada e arrepiada, descobriu-se que aquela múmia havia sido uma grande liderança do antigo povo A-Gênero, que dera origem à atual civilização ÊLA.

Após esse fato histórico, um museu de ciência natural foi inaugurado, a múmia posta em exposição e os dados antropológicos divulgados a toda Nação. Infelizmente pouca coisa foi descoberta sobre a identidade da múmia. A única pista encontrada foi seu primeiro nome, escrito num papel petrificado. Na divulgação de uma boate antiga estava registrado: Suzy, a Deusa da Penha Circular.

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